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Crime Perfeito

By Monica de Camargo Coutinho
June 28, 2004

Minha esposa andava me aporrinhando há uns pares de anos, e eu não suportava mais aquela chatice tamanho gigante. De repente começou a adoecer, tendo dores incuráveis, até diabete ela arranjou, não sei como, pois penso que a pessoa deve comer muito doce para ter tal enfermidade, ou não? Dizia que não gostava de doce, ora bolas, como alguém de cuca fresca diz que não come doce e fica diabético? Uma hipocondríaca insuportável que só pensava em doenças! Por quê? Por que tem boa vida demais e quer azucrinar a minha? Sempre teve boa vida, nunca trabalhou fora, dou-lhe boa mesada, deixo-a viajar sozinha, algo que antes? Nem pensar! Mas fui tocando minha enfastiada vida, e chegar a casa era um dos meus maiores abismos. Antes que ela começasse a falar eu já dando umas patadinhas para desarmá-la. Com o tempo ela foi ficando brava comigo, por não termos mais diálogos, e para lhe fazer mais raiva ainda, até contra seu time de futebol eu torcia, contra, e torcia, enrustido, como dizia ela, para o arqui-rival, só para lhe fazer raiva. Ela foi ficando sozinha no seu canto, passou a dormir noutro quarto, com a reles desculpa de que não queria ser fumante passiva, e não conseguia dormir com a televisão ligada.

Costumávamos passar os fins de semana na nossa casa de campo, eu não a obrigava a ir comigo, talvez fosse lá, por causa do antigo hábito de submissão. Certa vez, disse-lhe que não precisava mais me acompanhar, não sei se ela desconfiou o motivo, mas eu havia arrumado uma turma de amigos e amigas, que desejava levar para lá, mas com a presença dela ficaria complicado, pois quando compramos a casa foi somente para laser familiar, pois fizemos todas as espécies de quadras esportivas, para diversão de todos. Eu não gostava muito de jogar nem um futebolzinho com os amigos, mas lhes dava liberdade de fazê-lo, e num fim de semana, enquanto eles jogavam, transei com uma garota. Dias depois senti uma terrível dor nas costas, mal podia andar, tão enferrujado eu estava. Mal podendo dirigir pedi a um amigo que levasse meu carro, e no dia seguinte, não suportando a dor nas costas fui a um ortopedista, que pediu que eu fizesse uma tomografia, que constatou uma hérnia de disco. Disse que não seria caso para cirurgia, mas se eu quisesse sarar rápido, poderia indicar um amigo que me faria uma infiltração de cortisona na coluna.

A garota todos os dias me ligava perguntando se eu estava melhor, se estava fazendo fisioterapia, e tudo. Conversava com ela como se estivesse conversando com um amigo, afinal, não precisava ser tão descarado. E quanto mais eu via a bruxa da minha esposa na minha frente, mais eu gostava daquela gata. O divórcio, por que não? Afinal, saiu para evitar danos maiores, mas tinha pena dela, não era um desalmado convicto.

Com a consciência pesada pela traição resolvi dar uma colher de chá a ela, e a levei ao mesmo médico para que diagnosticasse sua possível dor nas costas também, última dor queixada. Hun! Seria pelo mesmo motivo? Não, ela não era mulher para tal, mas queria ficar livre dela o mais depressa possível. Acharia um método que não a magoasse muito.

Meu médico receitou-lhe o mesmo que para mim, uns antiinflamatórios, e exames de sangue, pois não poderia fazer tal infiltração, quem fosse diabético. A cortisona aumenta de tal maneira a taxa de glicose, que leva o diabético ao coma, em poucos minutos, e morte conseqüente. Mas não lhe dei o pedido dos exames de sangue.

O médico que nos faria as infiltrações, não pediu exame nenhum, para minha surpresa e tranqüilidade. Falei que o diagnóstico era o mesmo, e que o ortopedista recomendara que marcássemos nossos exames, depois de constatadas as hérnias de disco. Quando chegamos fomos atendidos por um médico idoso, mas de voz firme, que pediu nossos exames tomográficos.

- É, não será difícil.
- Muito bem, quem será o primeiro? Perguntou alisando o ralo bigode.
- Pode ser eu, estou acostumada a tomar injeções por causa dessas dores.
Ai, que alívio!
- Está bem, quer que eu fique aqui com você? Perguntei, com uma ponta de remorso.
- Quero. Segure minha mão, por favor, isso deve doer muito, pediu humildemente.
Meu coração pulsava desordenadamente. Por que o mocorongo do médico não pediu para ver os exames?
Levado pelo bom instinto ainda tentei segurar a mão com a seringa, mas já era tarde. Assim que começou a infiltração ela entrou em choque e começou a se debater convulsivamente. O médico suando feito louco retirou a seringa de sua veia, imediatamente.
- Por acaso ela é... Ela é... diabética?
- É, por quê?
- Deus do céu? Onde estão os exames de sangue, por que não me disse quando chegou aqui com ela? O médico não exigiu exames de sangue?
- Não, aliás, pediu, e dei a ela para fazer mas, na verdade, nem sei se ela os fez.
- Que irresponsabilidade é esta? Não sabia dessa conseqüência, o médico não te avisou sobre isto?
- E o senhor, por que não solicitou os exames? Pressa em ganhar um dinheirinho fácil? Não venha jogar culpa pra cima de mim, que processo o senhor por falta de profissionalismo.
- Não tenho culpa nenhuma.
- Ah, tem, sim. O senhor sabia o que podia acontecer.
- E o senhor que é marido, também. Por que a trouxe?
- Quem disse que eu sabia? Meu médico não me disse nada, só pediu estas tomografias, disse que a infiltração seria algo corriqueiro demais, coisa muito simples.
- Precisamos processar esse médico, olha, ela está acabando de morrer. Pelo amor de Deus, meu senhor, já estou de idade, não me prejudique, sei que fui incorreto, mas não conte que fez isso aqui na minha clínica.
- E vou dizer o quê?
- Diga o que quiser, que talvez ela estivesse cansada de viver, que trocou os exames de sangue com alguém saudável, para cometer um suicídio sem complicar ninguém. Caso contrário, isto pode prejudicar o senhor também, por leviandade, pois claro que sabia que ela era diabética, não?

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About the author: Monica de Camargo Coutinho is from Brasil. Email: monicadicamargo@seven.com.br

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